A TARDE 25/11/2000 - Opinião
ArtigoA ética e o caos
Liliana Peixinho *
Definida como regras de conduta, de comportamento, para o equilíbrio nos relacionamentos entre as pessoas, a ética passa por séria crise em todo o mundo. Seja no ambiente de trabalho, nas relações pessoais, sociais ou até mesmo entre familiares, os interesses de cada um estão dando lugar aos interesses coletivos.Como o respeito ao outro é base para a aplicação da ética e as pessoas estão,cada dia mais, preocupadas com si mesmas, em defender os seus interesses, os conflitos daí decorrentes têm gerado crises sociais inconsoláveis.
A origem desse desequilíbrio social pode ser encontrada no grande número de informações que são jogadas diariamente pelos meios de comunicação de massa,muitos deles especialistas em sensacionalizar notícias, em alardear ou difundir informações, para um público ainda despreparado para filtrá-las, absorvê-las ou subvertê-las em nome do bem comum. No Brasil neoliberal, a falta de ética estápresente em todos os setores da sociedade organizada. Na TV, por exemplo, éalarmante a quantidade de filmes que não têm compromisso com a formação da cidadania, com uma educação direcionada à formação do homem, como sujeito de direitos e deveres.
Nas empresas, funcionários brigam entre si, competindo por lugares cada vez mais altos, nos cargos das empresas, desconsiderando valores que não sejam o capital. Na política, um parlamentar ou candidato massacra ooutro, na guerra entre partidos, que, no geral, defendem interesses específicos e muito imediatos, sem metas determinadas para a construção de um futuro melhor.O cinismo, a cultura do lobby, dos privilégios, do apadrinhamento, é regra. E,quem luta contra isso, exceção rara. Ser político virou sinônimo de saber driblar, enganar, ter jogo de cintura para deixar rolar as solicitações, as necessidades da populações, sem perder a credibilidade do eleitor.
Aqueles que têm controle emocional e mostram-se diplomatas e racionais, então, são verdadeiros atores, com direito a idolatrias dos ignorantes. E no futebol, até no futebol, onde antes se tinha muito prazer e alegria em torcer por um time, a crise é feia, e o interesse dos dirigentes de clubes é capitalizar estrelas,independentemente do brilho próprio de cada jogador. Mais do que futebol-arte, o que interessa é a acumulação de riquezas materiais, através de negociações escusas, com cumplicidade dos próprios jogadores. O último episódio nacional,envolvendo um, então, dirigente da Seleção Brasileira, deixou o país indignado e desesperançoso com o futuro do que antes era um dos nossos grandes orgulhos.
Entre os amigos, colegas da escola, da rua, em tempos não muito distantes, se brincava e contava histórias ricas para o aprendizado da vida, a realidade atual é de muita discórdia, e, entre discussões, brigas e defesas de interessespróprios, uns e outros perdem vidas, no afã da guerra que estão envolvidos,inconscientes e prematuramente. Na própria família, a crise doméstica, com pais separados, faz surgir pessoas que, com problemas psicológicos graves, acabam desmantelando, dissolvendo, ainda mais, o pouco que restou da família anterior.
Diante deste quadro, o que fazer? Como recomeçar o resgate do equilíbrio, do respeito ao outro, do sonho pela igualdade? O desafio está sendo lançado às novas gerações, aos filhos de um mundo carregado de injustiça, sedento de solidariedade e carente de amor incondicional, infindo. Alunos de um colégioparticular de Salvador me entrevistaram para um trabalho escolar sobre a importância da ética no cotidiano de cada um. Acho que essa vontade em querer saber, pesquisar, querer entender o ambiente onde estes alunos estão envolvidos já é uma contribuição de uma nova geração para identificar problemas que demandaram a atual crise ética. É também uma esperança para podermos ter orgulho, em breve, de que o Brasil pode caminhar para a construção da suahistória com dignidade, bravura e orgulho.
* Liliana Peixinho é jornalista e ativista socioambiental Fundadora da RAMA- Rede de Articulacao e Mobilizazao em Comunicacao Ambiental e do Movimento AMA - Amigos do Meio Ambiente
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